sábado, 21 de maio de 2016

As escolas do Camboja

Escola em Battambang

Uma sala quase vazia. As paredes cheias de um angustiante nada. Apenas uma cama ferrugenta com correntes e algemas à cabeceira. No pavimento uma mancha cor de sangue. Será mesmo? Pessoas que entram e saem num silêncio profundo. No chão um simples xadrez de mosaicos laranja e branco.
Bem longe, uma sala cheia de crianças. Na parede um quadro de ardósia. As paredes cheias de posters, desenhos e alegria. Uma meia dúzia de filas de carteiras. É intervalo. Uns miúdos gritam, outros correm pelos corredores. Meninas, sentadas, conversam animadamente. No chão um simples xadrez de mosaicos laranja e branco.
Duas salas quase iguais. A primeira em Phnom Penh, na prisão de segurança S-21, uma escola onde as salas foram adaptadas para interrogatórios no tempo dos Khmer Vermelhos. Desde essa altura assim ficou, pois escola nunca mais poderá voltar a ser. Foi reconvertida no Museu Tuol Sleng para nos recordar o que nunca deve ser esquecido.
Museu do Genocídio Tuol Sleng
Não é comum, mesmo para quem o viveu, saber a duração exata de um regime político. Mas qualquer cambojano sabe que este perdurou por três anos, oito meses e vinte dias. Tempo suficiente para esvaziar as cidades, matar milhões à fome e massacrar outros milhares. Quando os Khmer Vermelhos foram expulsos do poder, um terço da população do país tinha padecido.
A outra sala fica também numa escola. Mas na pequena cidade de Battambang, onde aproveitei a minha estada para, dentro do possível, conhecer melhor a realidade do Camboja. Visitei templos, aldeias e também escolas. Graças a um condutor de tuk-tuk com um inglês admirável, escutei histórias de vida (desde a guerra do Vietname à atualidade) e testemunhei a dificuldade com que vive a maioria dos cambojanos. Mas ouvi, repetidamente, que o pior já passou, vi que o horrível passado foi aceite com uma serenidade budista, encontrei esperança e uma enorme vontade de mudança.
Escutei também, numa gruta usada pelos Khmer Vermelhos como campo de extermínio, os relatos de um sobrevivente desses tempos. Numa voz serena, este guia turístico, contava a um grupo as suas provações durante aqueles anos. A um canto, resguardado pelo escuro da gruta, fiz as contas. Tinha a minha idade.
Criança Camboja
Dias depois, já em Phnom Penh, eu e o Gonçalo, companheiro de viagem, fomos bem cedo visitar os Campos da Morte (o local usado como campo de extermínio na capital cambojana) e depois a prisão S-21. Nesta manhã pensava que ia mentalizado. Achei que mais forte que a gruta de Battambang seria difícil. Enganei-me.
No final da manhã, tentámos trocar algumas palavras sobre o que vimos, o que ouvimos (nos áudio guias) e o que sentimos. Balbuciámos umas palavras. Mas não consegui encaixar, se é que é possível encaixar, a dimensão do genocídio cambojano. Certos graus de magnitude vão além da minha compreensão. Apenas o final do dia, com vista para as animadas margens do Mekong, repôs alguma tranquilidade na minha mente.
Não esquecerei aquela manhã passada nos Campos da Morte e na S-21 e as horas passadas na escola em Battambang. Mas, acima de tudo, senti esta experiência como um vislumbre das duas faces da moeda que é a raça humana (talvez yin e yang seja mais apropriado). De como é possível um pequeno grupo de homens impor, em tão pouco tempo, uma mudança inimaginável numa sociedade. Um dia temos uma animada sala de aulas; no dia seguinte, no mesmo local, uma sala de tortura.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Joanesburgo, incompreendida e surpreendente

Centro de Joanesburgo, África do Sul

Quando, em março de 2012 deixei a Cidade do Cabo, depois de sete meses de viagem desde a Noruega, comprometi-me a voltar num prazo máximo de cinco anos. Tinham ficado coisas por fazer, lugares por visitar. Não viajara no Shosholoza, não subira sequer à Table Mountain naqueles oito dias na Cidade do Cabo, por pura preguiça de fim de viagem (devia haver um nome para isso, para essa inacção perante a eminência do fim e o cansaço do longo caminho percorrido).
Aquele mês na África do Sul, passado entre Joanesburgo e a Cidade do Cabo, deixara em mim uma estranha sensação de curiosidade, estranheza, medo e fascínio que eu desejava melhor compreender. Quatro anos volvidos, aqui estava eu de volta a Joanesburgo, na África do Sul, desta vez para começar uma viagem de 80 dias pela África austral e, por isso, sem desculpas para não fazer tudo o que queria e devia fazer (ou ter feito).

De regresso a Joanesburgo

A julgar pelos cruzamentos das grandes avenidas, pouca coisa mudara em Joanesburgo: nestes cruzamentos junto aos “robot” – como por aqui chamam aos semáforos -, continuam os mesmos obstinados limpa-janelas, incómodos para amaioria dos condutores; os mesmos malabaristas do diablo, os mesmos vendedores de carregadores de isqueiro; os mesmos anunciantes de colete refletor e anúncio espetado num capacete fluorescente.
Os índices de criminalidade não parecem ter diminuído e, por isso, a profusão de vedações eletrificadas ou de arame farpado continuam a impressionar no topo dos muros, já de si altos, das moradias.
Praça Nélson Mandela, Joanesburgo
Apesar de tudo, sabia-me bem voltar a Joanesburgo. Bastou sair do aeroporto para me deliciar com o cheiro do ar – esse perfume de África na noite quente – soprado por uma leve brisa que sacudia mansamente a copa das árvores nesta que é, contra todas as expectativas, uma das cidades mais verdes do mundo.
O que torna a cidade de Joanesburgo tão interessante é o seu lado surpreendente e improvável – mesmo que dela não se faça grande ideia. É um facto que ter família por aqui ajuda. Eles ensinaram-me, mesmo sem se darem conta, a apreciar a cidade.
No entanto, tenho consciência de que poucos encontrarão razões de sobra para visitar Joanesburgo. Mesmo para quem reside na maior cidade sul-africana, Joanesburgo continua a ser apenas o epicentro financeiro; lugar de trabalho onde escasseiam as distrações e onde o fosso social e as memórias doapartheid são mais evidentes.
Joanesburgo está longe de ser uma típica cidade africana – não seria sequer de esperar – devendo as suas raízes às vagas de emigração desde o tempo dos primeiros garimpeiros do ouro – como o confirma uma das inscrições do Museu do Apartheid: “nenhum outro lugar na África do Sul contém tamanha variedade cultural. Foi esta robusta mistura de nacionalidades, raças, culturas e línguas que deu a Joanesburgo o seu caráter único.” Assim é – e, quanto mais não fosse, qualquer visita vale por isso mesmo.
Museu do Apartheid, em Joanesburgo
Ao contrário da maioria das grandes cidades, com o centro tendencialmente ocupado pelas elites e os subúrbios povoados pelas classes menos favorecidas, Joanesburgo downtown é pouco convidativa e bairros como Hillbrow – aparentemente dominado por emigrantes africanos – são mesmo de evitar.
Em contrapartida, os subúrbios são urbanizações fechadas de moradias guardadas por segurança privada, perfiladas ao longo de ruas calmas e ensombradas, longe do centro e das infames townships como o Soweto ou Alexandra. Têm um certo ar americanizado, como Melville – provavelmente um dos bairros mais interessantes da cidade.
Com uma vibrante rua de cafés, bares e restaurantes e um bom leque de guesthouses, Melville é sem dúvida o lugar ideal para ficar e sentir a cidade, preparar um braai (tradicional churrasco) ao final da tarde, em redor da piscina e ao som do canto dos ibis negros de bico de foice, admirando os ninhos de tecelão pendendo das acácias, especialmente depois de um dia de muito calor, como os que por agora se têm sentido.
Ainda a propósito de Hillbrow, é possível ter um vislumbre do bairro a partir do antigo forte do agora Constitution Hill. Não sei se parece assim tão assustador ou se é apenas por sugestão de tudo quanto fui ouvindo a seu respeito, mas o que é certo é que não arriscaria percorrer aquelas ruas de prédios altos repletos de parabólicas, lojas mal-arranjadas e montras coloridas com os logótipos de operadoras de telefone, e táxis coletivos num pérpetuo vai e vem.
Já quanto ao Constitution Hill, é de visita “obrigatória”. Este forte, construído durante a guerra dos bóeres, serviu como estabelecimento prisional para invasores britânicos e prisioneiros políticos durante o período do Apartheid. Nelson Mandela passou aqui um ano em cativeiro.
Recentemente, foi parcialmente reconvertido em Tribunal Constitucional, albergando no seu interior uma coleção de arte de mais de 200 obras de autores contemporâneos. Na visita ao que resta do presídio, é possível perceber como até ali a segregação racial imperava, cabendo aos “brancos” mais alimento, mais espaço, mais tudo…
Outro dos locais que aconselho a visitar em Joanesburgo é o Museu do Apartheid. Possui uma fantástica exposição que nos transporta no tempo através da história, não só desse negro período, mas desde o tempo dos primeiros garimpeiros e fundadores da cidade, que em pouco mais de cem anos passou de um amontoado de tendas a uma das mais vibrantes cidades do mundo.
Pode, por exemplo, ficar a conhecer a descendência do português que organizou a primeira festa de natal de Joanesburgo, ou perceber como se organizava uma sociedade baseada na segregação racial e como essa mesma sociedade lutou e sofreu para derrubar esse racismo imbecil.
Pode perceber o ridículo de um sistema que catalogava as pessoas pela cor da pele, atribuindo-lhes direitos e deveres diferentes, mas que contemplava a possibilidade dessas mesmas pessoas mudarem de cor. A segregação racial levou à criação de zonas residenciais apenas destinadas a negros, comoAlexandra ou o Soweto, e em determinada altura a zonas semi-independentes onde a comunidade negra deveria viver, passando a necessitar de uma espécie de “livre-trânsito” em caso de convite ou trabalho, para entrar na “cidade dos brancos”. Um sistema que procurava impedir a miscigenação e a igualdade.

Soweto, a maior township de Joanesburgo

Desse período, permanecem ainda muitas das townships então construídas. O Soweto é a maior de todas, com uma população de mais de três milhões de pessoas, e qualquer visita a Joanesburgo ficará incompleta sem uma ida ao Soweto. Como se diz por ali: quando o Soweto espirra, toda a África do Sul constipa. É o coração da cidade, durante anos separado do seu corpo.
Visita ao Soweto, Joanesburgo
E a visita é tão mais importante, para que se perceba a injustiça da infâmia e da incúria a que o Soweto tem sido votado. Estou certo que uma grande percentagem da população branca de Joanesburgo nunca ali pôs os pés, com a desculpa do medo de uma suposta violência. Por outro lado, pode parecer voyeurismo a visita a um lugar como o Soweto, mas a verdade é que só assim se entende plenamente a cidade de Joanesburgo.
Soweto não é um amontoado de casas de lata (ainda que as haja), é muito mais que isso. É o berço de gerações lutadoras e outras que procuram agora virar a página e caminhar no sentido das palavras deMadiba, no sentido de uma nação multicultural e igualitária. Em Joanesburgo percebe-se que há ainda muito caminho a percorrer, mas é precisamente aqui, lugar de tantas batalhas, que melhor se sente a vontade sul-africana de o percorrer.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Harajuku, a zona mais cool de Tóquio

Cosplay em Harajuku, Tóquio

Harajuku, no bairro de Shibuya, foi um dos primeiros lugares que visitei em Tóquio e foi, literalmente, amor à primeira vista. O passeio desde Shinjuku fez-se pela Meiji Dori, por entre edifícios residenciais e ruas quase desertas, mas a chegada ao bairro foi bem marcante: ruas cheias, coloridas e ruidosas, lojas das marcas mais conhecidas entre os jovens japoneses e luzes vibrantes que anunciam ter chegado à zona mais cool da cidade.
Depois de conhecer razoavelmente bem Harajuku, é possível dividir a zona em três áreas mais ou menos distintas: Takeshita Street; Meiji Dori e Ometosando Street; e Harajuku Street e Ura-Harajuku (ou Cat Street). É sobre cada uma dessas áreas que escrevo, para o ajudar na hora de visitar Harajuku.

As zonas de Harajuku, Tóquio

#1 Takeshita street

Takeshita Street é uma das muitas ruas paralelas à Meiji Dori. Mas não é só mais uma rua. É em Takeshita Street que encontramos a cultura pop japonesa mais bem representada. Por aqui, os cabelos pintam-se de cores garridas, as mochilas são de pelo ou com os padrões mais bizarros que possa imaginar, caminha-se em cima de plataformas altíssimas, em sapatos de solas bem grossa e, de preferência, brilhantes, os gorros têm focinhos de animais e as camisolas têm estampados que vão desde onigiris e peças de sushi até ao padrão da roupa das personagens de ficção.
Takeshita street em Harajuku
As roupas não combinam, mas ninguém se preocupa com isso. Em Harajuku, ninguém olha nem julga. Também os cos players (aqueles que se vestem como os seus personagens favoritos de manga e anime) se passeiam por Takeshita como se nada fosse e, do meu lado, se a vergonha, a dificuldade em comunicar e o medo que possam levar a mal já tivessem sido ultrapassados, as fotografias destas personagens da vida real já se acumulariam nos meus registos.
Apesar de Takeshita Street ser apenas uma rua, as suas paralelas continuam este “mundo à parte” de lojas que despertam a curiosidade dos turistas. Mas, se a ideia é visitar Takeshita com pouca gente, então o melhor é ir cedo, ainda antes das lojas abrirem, porque o mais certo é que, por volta das 10:00 – 10:30 da manhã, já seja difícil circular. E atenção, a circulação em Takeshita faz-se tal e qual como na estrada no Japão: pela esquerda.
O ideal será descer a rua e voltar a subi-la, para garantir que não fica nenhuma loja por explorar, nem nenhum recanto por conhecer. Vale e pena perder tempo a conhecer estas ruas de Harajuku que nos mostram como é, de facto, a cultura pop japonesa.
Paragens obrigatórias serão a Daiso, onde (quase) todos os produtos custam 108 ienes (com taxas incluídas) e onde se encontra papel de origami bonito, bom e barato, a Tutu Anna para meias bem diferentes e tipicamente japonesas e, antes de sair da Takeshita Street em direção à Meiji Dori, visitar acreperia Santa Monica para um delicioso crepe enrolado – a mistura de crepe, bolo, gelado e frutas nunca deixou ninguém ficar mal, pois não?

#2 Harajuku street e Ura-harajuku

Do outro lado da rua fica Harajuku Street. Mais uma vez não é apenas uma rua, mas sim várias ruelas que acolhem um género de pessoas totalmente diferente daquele que se encontra em Takeshita Street.
Loja vintage em Harajuku Street, bairro Shibuya
Em Harajuku Street o ambiente é muito mais casual e moderno, mais da moda, repleto de jovens cheios de estilo. Eles de casaco de cabedal, calças curtas, meias coloridas e um ar muito rockabilly. Elas de oxford shoes, calças de padrões variados – sempre com cair perfeito e quase sempre curtas – e bomber jackets.
As lojas são decoradas ao pormenor, ao melhor estilo nórdico, onde menos é sempre mais, e amontoam-se as lojas de artigos em segunda mão, quase sempre de qualidade inegável e de marcas que, mesmo nas mãos de segundos donos, prometem durar uma vida. O ritmo calmo e descontraído e a decoração com base nos neutros que se encontra em Harajuku Street contrasta de forma vincada com a agitação e as cores vibrantes de Takeshita Street.
Obrigatório visitar são o café Deus Ex Machina, onde se comem sandes divinais e onde os empregados têm o ar mais cool de sempre, a loja Kinsella – cuja montra vale a pena apreciar para quem é fã de E.T. – e as várias lojas de artigos em segunda mão.
Loja em Harajuku Street
Caminhando na direção de Shibuya, e atravessando Ometosando Street, encontra-se Ura-Harajuku – ou Cat Street. Para os amantes de lagosta é obrigatório parar no Luke’s Lobster. A cadeia é americana, mas as sandes são deliciosas e as filas bem longas enchem-se de japoneses e turistas, gulosos e esfomeados. Parar também na S.K.U. (Save Kakhi United) para peças bonitas, minimalistas e de boa qualidade e na Book Marc, a livraria por Marc Jacobs que vende livros de arte, cultura e moda de artistas que inspiraram o estilista.

#3 Ometosando Street e Meiji Dori

Meiji Dori e Ometosando são as ruas que imaginaríamos mais tradicionais para uma tarde de compras, passada algures entre a Avenida da Liberdade e a Baixa de Lisboa.
Em Meiji Dori encontram-se as lojas habituais que fazem as delícias de qualquer jovem. Desde a Forever 21 à Levi’s, passando pela giríssima Nikoand. É paragem obrigatória a Asoko, com artigos a preços baixos mas design jovem, colorido e apelativo, de todos os artigos e mais alguns, como os essenciais para qualquer casa, ou para rechear o escritório de coisas bonitas e baratas, e o centro comercial La Foret.
Já Ometosando Street procura distinguir-se e apelar a um público-alvo com carteiras mais recheadas. Há quem lhe chame Champs Elysées de Tóquio, e a ideia que possam criar na vossa cabeça não ficará aquém das expectativas – se ignorarmos previamente a ausência do Arco do Triunfo. Aqui vale a pena não perder a Chanel (para os fãs da marca), a Shu Uemura, e a MAC Cosmetics, que é difícil encontrar como loja de rua e com tanta variedade de produtos. Para quem se queira dedicar a um shopping spree, nada como visitar Ometosando Hills e aproveitar para, ao mesmo tempo, apreciar um belo exemplar de arquitetura moderna.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O que fazer em Roma

Seria necessário viver muitas vidas, ou ser um turista em tempo integral, 365 dias por ano, para tentar conhecer tudo aquilo que Roma tem a oferecer. Afinal, são mais de 2.760 anos de história, desde a sua fundação.
Mas se Roma é ligada sobretudo às suas antiguidades e ruínas, também é verdade que há muito mais a ser descoberto: da street art à arquitetura moderna, passando pela lenta mais inexorável modernização (sem radicalizações ou exageros) da gastronomia local. Aqui estão um punhado de dicas para você curtir o melhor de Roma.

#1 Obras-primas expostas gratuitamente dentro das igrejas romanas

Caravaggio em San Luigi dei Francesi, Roma

Muito daquilo que em outras cidades do mundo se encontram dentro dos museus, em Roma pode ser visitado (gratuitamente) dentro das igrejas romanas.
Há pelo menos dois “roteiros” para os amantes da pintura e da escultura: o primeiro é visitar as três igrejas romanas que, no total, hospedam seis quadros de Caravaggio. São elas: a Basílica de Santa Maria del Popolo (Piazza del Popolo), a Igreja de San Luigi dei Francesi e a de Santo Agostino (ambas entre o Panteão e Piazza Navona).
Se além dos Caravaggios, você também quiser admirar bem de pertinho algumas das esculturas mais belas de Michelangelo, o conselho é contemplar o Cristo Redentor, na Basílica de Santa Maria Sopra Minerva (coladinha no Pantheon), e o Moisés na Basílica de San Pietroin Vincoli (ali pertinho do Coliseu).
Enquanto a maioria dos visitantes se acotovela para ver (e fotografar!) a Pietà, na Basílica de São Pedro, as demais esculturas do génio renascentista passam quase despercebidas pela maioria dos turistas.

#2 Vistas panorâmicas de Roma (simplesmente brutais)

A cidade de Roma vvista do terraço Vittoriano

Uma das maiores emoções que Roma pode reservar é ser admirada do alto. Há inúmeras possibilidades, das mais famosas às mais inusitadas, das pagas às gratuitas.
O panorama da cidade revela inúmeras surpresas aos olhos mais curiosos e atentos. Como num quebra-cabeça, há uma mistura eclética de estilos: cúpulas barrocas, palácios renascentistas, ruínas da antiguidade e de época medieval, e até arquiteturas do séc. XX e XXI.
Um dos aspetos mais belos das vistas panorâmicas é ter a oportunidade de contemplá-la longe das massas, pois Roma é uma cidade com forte presença de visitantes durante todo o ano. Algumas das melhores vistas são: o terraço panorâmico do Vittoriano, o terraço panorâmico do Coliseu (geralmente aberto de abril até novembro), os seis miradouros (mirantes) do Palatino, o Gianicolo (um miradouro com jardim que se debruça sobre o Trastevere), o terraço panorâmico do Castelo Santo Ângelo e também a cúpula da Basílica de São Pedro, no Vaticano.

#3 Roma também tem arquitetura moderna e street art

O que fazer em Roma: Street art em Tor Marancia

A linha do tempo de Roma é comprida demais, o que nos permite contemplar achados antiquíssimos. Mas, se é verdade que a cidade é lembrada sobretudo pelas suas antiguidades, Roma está viva e continua deixando um legado para os séculos e gerações vindouras.
Grandes arquitetos de fama internacional contribuíram recentemente com novas construções: a iraniana Zaha-Hadid (MAXXI, Museo dele Arti del Secolo XXI), o americano Richard Meier (a Ara Pacis de Augusto) e o italiano Renzo Piano (Auditorium Parco della Musica).
Se nas áreas mais centrais temos a presença de grandes arquitetos, é na periferia (e non solo!) que a arte de rua encontra a sua força. Demorou, mas a street art fincou seus pés na Cidade Eterna, reunindo os melhores artistas locais e internacionais.
Nomes como Alice Pasquini (por muitos considerada a “Bansky italiana”), Blu (famoso artista italiano cujo nome verdadeiro permanece no anonimato) e Vhils, pseudónimo do street artist português Alexandre Fartodeixaram seu legado nas ruas de Roma. Fundamental ir ao bairro de Tor Marancia e também conhecer o projeto Ostiense District.

#4 A Intimidade da Cidade Eterna nas primeiras horas da manhã

Visitar Roma: Piazza Navona

Pode parecer loucura sugerir que alguém acorde cedo, bem cedo, durante as férias. Mesmo correndo o risco, aconselho em alto e bom som a ir para a rua nas primeiras horas da manhã.
Ver a Fontana di Trevi vazia e escutar a sinfonia musical das águas que dela jorram é uma experiência única. E que tal dali ir também até a Piazza del Campidoglio e, de lá, ver as ruínas do Fórum Romano? Seu passeio perfeito e silencioso pode terminar na Piazza Navona que, nas primeiras horas do dia, proporciona um espetáculo único: admirar as suas fontes majestosas (inclusive a mais famosa, a Fonte dos Quatro Rios, de Gian Lorenzo Bernini) como se elas fossem exclusivamente suas.
O melhor horário para contemplar essas maravilhas é volta das 7:30 da manhã.

#5 Comida de rua entre tradição e “nuovacucina

Pizzas gourmet de Gabriele Bonci

Em Roma sempre existiu uma forte tradição de comida de rua local. Muitos antes que se falasse maciçamente de street food, já saímos por aí a comer supplìs (um delicioso “croquete” de arroz com tomate, recheado com mozarela) e a famosa pizza al taglio, pedaços de pizza quentes que podem ser combinados com qualquer ingrediente.
Muitos novos chefs aproveitaram a ocasião e uniram essa forte tradição local aos ventos da “nova cozinha”. Hoje, a comida de rua tradicional (daquelas antigas rotisserias italianas com mammas e nonnaspilotando o fogão) convive pacificamente com a comida de rua moderna e ousada… ma non troppo!
Locais que não decepcionam: Forno Campo e Forno Roscioli (duas panificações famosas no Campo de Fiori), Supplizio (Campo de Fiori) Bonci Pizzarium (nos arredores dos Museus Vaticanos), e La Pizza del Teatro (nos arredores da Piazzaavona).

domingo, 24 de abril de 2016

24 horas em Madrid

Plaza de Cibeles, Madrid
Madrid é uma grande cidade europeia e, por isso, nenhum roteiro de um dia poderá ser um top de atrações turísticas nem tampouco responder à eterna questão sobre “o que fazer em Madrid”. É, ao invés, uma visão pessoal sobre um dia bem passado na capital de Espanha, especialmente para quem pretende visitar Madrid pela primeira vez ou deixar-se guiar na descoberta da cidade, que poderá incluir numa estadia mais prolongada em Madrid.

Madrid em 24 horas

Manhã

Começa o dia com um pequeno-almoço bem castizo: churros e porras com chocolate quente, ou café com leite para quem precisa de cafeína de manhã. A Chocolateria San Ginés, aberta há 120 anos, serve-os 24 horas por dia.
Segue pela Calle Mayor, para Este (esquerda), passando pela Puerta del Sol. Cumprimenta de longe a estátua do urso, ponto de encontro de meia Madrid e provavelmente a mais fotografada de toda a cidade. Vira para a esquerda, seguindo sempre pela Calle de Alcalá até chegares à Plaza Cibeles.
Lugar mítico de multidões, esta é a praça onde os madrilenos se dirigem quando querem celebrar algo, quando se manifestam contra o governo e quando o Real Madrid ou a seleção espanhola ganham campeonatos de futebol. Aparte essa mística, é uma praça com vários edifícios de relevo. A fonte que constitui o meio da praça, com a Deusa da Fertilidade numa carruagem puxada por leões; o Palácio de Cibeles, sede do Ayuntamento de Madrid e centro cultural (se vieres com mais tempo, é um ótimo lugar para passar algumas horas); o Banco de Espanha e o Palácio de Linares. Se olhares na direção por onde continua a Calle de Alcalá, poderás avistar a Puerta de Alcalá, uma das cinco antigas portas reais, que davam acesso à cidade.
Segue para Norte, subindo o Paseo de Recoletos. Esta é a alameda mais antiga de Madrid. Zona de palacetes e jardim público desde o século XIX, foi renovado em 2002 de modo a incluir mais áreas verdes e pedonais. O projeto desta renovação foi ganho pelo arquiteto Português Álvaro Siza.
Biblioteca Nacional, Madrid
Entra na Biblioteca Nacional de Espanha. Se te interessarem, aprecia as exposições temporárias. Se não, absorve apenas a beleza de ter mais de cinco milhões de livros num edifício do século XIX. Para além do acervo trazido de França por Felipe V e de outras doações feitas ao longo dos séculos, desde 1715 (quando a biblioteca ainda era noutro edifício) que recebe um exemplar de todos os livros publicados em Espanha. Repara nos nomes dos grandes escritores espanhóis, gravados nas paredes do Salão de Leitura, e das províncias, no teto.
Ao lado da biblioteca estão os Jardines del Descubrimiento. Vai espreitar o monumento em cimento avermelhado, em cima de um espelho de água que realça a sua forma de barco. Tem gravadas profecias relativas à Descoberta da América e relevos de figuras de navegadores, reis, índios e todos os que participaram e foram atingidos de alguma forma por esse empreendimento.
Olha para o lado oposto do jardim, passando a Plaza Colón. Vais avistar as Torres de Colón, um dos primeiros edifícios modernistas da cidade, apelidado pelos madrilenos de el enchufe (a tomada) devido à sua forma. Em 2008 foi eleito pela virtual tourist como o sexto edifício mais feio do mundo.
Volta ao Paseo de Recoletos e apanha o autocarro 14, no sentido de volta à Plaza Cibeles. Agora tens duas opções para passar o resto do dia.
a) Museu do Prado
Se tens um grande interesse por Arte e museus, não podes deixar de visitar o Museu do Prado. Junta-lhe os jardins do museu e vais estar ocupado até à hora de jantar. Sai do autocarro na paragem Plaza Prado/Plaza Murillo. Provavelmente vais ter de esperar bastante tempo na fila para entrar. 
b) Parque do Retiro e vida de Bairro em La Latina
Sai do autocarro na ronda de Atocha. Ao lado da Plaza Emperador Carlos V está um dos bares mais autênticos de Madrid. O El Brillante é despretensioso e famoso pelas bocatas. Pede uma de calamares com maionese para levar e volta para Atocha, para entrares no Parque del Buen Retiro.

Almoço

Palácio de Cristal, parque de Retiro, Madrid
Escolhe o lugar que mais te agrade para te estenderes na relva a comer a bocata. Dorme uma sesta debaixo de uma árvore ao pé da lagoa, ou do palácio de Cristal. Está descansado que a sandes é mais que suficiente, já aí vem comida a meio da tarde. Estás na cidade das tapas!

Tarde

Sai do parque pela Plaza Parterre. Vai sempre em frente, pelas Calles Felipe IV e Cervantes. Na Calle Leon vira à esquerda e depois à direita para a calle Magdalena. Continua pela Calle Collegiata até chegares à Plaza de la Puerta Cerrada. Chegáste ao bairro La Latina, que foi o primeiro espaço urbano de Madrid, na Idade Média. A arquitetura e distribuição do bairro refletem esta origem com ruas estreitas e inclinadas e prédios baixos com azulejos.
O melhor desta zona é mesmo perderes-te pelas ruas e praças, sentar nas esplanadas a beber uma caña e sentir o ritmo do bairro. Com a Plaza de la Puerta Cerrada pelas costas é calcorrear as Calles Cava Alta, Cava Baja, Nuncio ou del Almendro, passando de umas para outras pelas ruelas que as unem.
Se a fome já apertar, a rosca depringa (carnes do cozido trituradas) na Taberna Almendro 13 é uma ótima (e gigante) opção para acompanhar a cerveja.
Plaza de la Paja, Madrid
Procura desembocar na Plaza de la Paja, onde se dispõem várias esplanadas, prédios coloridos e a Capilla del Obispo ao fundo, ou na Plaza de San Andrés, com a igreja com mesmo nome e a vida de tabernas e esplanadas que se sente em todo o bairro. Aqui está também o Museu San Isidro, se quiseres ficar a conhecer mais sobre a história de Madrid.
Volta a subir na direção da Plaza de la Puerta Cerrada, pela Calle Toledo. Segue sempre nesta rua até chegares à Plaza Mayor. Aprecia o que é um dos pontos turísticos mais conhecidos da cidade, mas não te demores. Tanto turismo já descaracterizou o que foi o principal local de comércio durante séculos.
Sai pelo pórtico que dá para a Calle Siete de Julio. Segue pela Calle de las Fuentes, Costanilla de los Angeles e Calle San Bernardo, sempre a subir.
Quando atravessares a Gran Via vais entrar no Bairro de Malasaña. Conhecido por ter sido o berço daMovida Madrileña dos anos 80, foi um bairro degradado e entregue à prostituição e tráfico de drogas durante muito tempo. Nos últimos anos, como tem acontecido por essa Europa fora, o afluxo de artistas e gente criativa, e o investimento de privados fez com que se tornasse no bairro mais trendy de Madrid. A gentrificação é um problema real, mas ainda assim continua a sentir-se aqui um ambiente que é ao mesmo tempo moderno e tradicional. Uma pequena aldeia dentro da cidade.
Gran Via, Madrid
Se te interessa a arte urbana tens muitos murais para descobrir e até as grades que cobrem as portas dos bares e lojas fechados podem ter verdadeiras obras-primas pintadas. A galeria (Es)positivo apresenta obras de artistas espanhóis e internacionais e funciona também como centro cultural.
Vai subindo para Norte, em direção à Plaza del 2 de Mayo, sem pressas. Esta praça é um dos centros nevrálgicos do bairro, sempre cheia de gente a passear, na conversa, ou a beber, de dia ou de noite. Construída em 1869, presta homenagem ao levantamento popular dos madrilenos em 1808, que inspirou a vaga nacional de protestos que levou à Guerra da Independência Espanhola. A estátua em frente ao arco que se encontra no centro da praça é de 1831 e representa Daoz e Velaverde, heróis deste levantamento.
Vais chegar aqui quando chegares. Sente a vida do bairro, para para beber um copo, tapear e beber mais um copo a seguir. Repara nas lojas de roupa vintage, cafés e restaurantes modernos, cafés tradicionais, lojas de discos e livrarias antigas. Abundam as galerias de arte e os bares. Vais seguramente cruzar-te com muitas bicicletas e homens de barba com óculos de massa, mas também pessoas mais velhas e famílias que aqui vivem há várias gerações.
Horto urbano no Patio Maravillas, Madrid
Não deixes de passar pelo Patio Maravillas, se o centro ainda se mantiver no edifício que ocupou na Calle Pez há seis anos (estão com ordem de despejo da câmara há meses, mas têm-se mantido por lá com o apoio dos vizinhos e de toda a gente que usa o centro e acredita nos seus valores). Este é um Espaço Polivalente Autogerido. Um centro social constituído por vários coletivos de gente que oferece atividades de forma gratuita e segundo a economia da dádiva e da troca; promove atividades culturais e de discussão social e política; tem uma horta urbana e um mercado agro-ecológico promovido pelos habitantes do bairro.

Fim de Tarde / Noite

Começa a noite com aperitivos. Podes tomar um bom vermut na Bodega Rivas ou, se te apetecer um ambiente mais chic vai ao 1862 Dry Bar.
Ao jantar podes ir saltando de lugar em lugar, ou então escolhe um destes para ir ficando. No Bodegas de La Ardosa não te esqueças de molhar o pão no salmorejo nem deixes de provar o pincho de tortilha espanhola. Há madrilenos que se questionam se a salada russa deles é ou não melhor que a da mãe.
A Casa Julio é famosa pelas croquetas (e por ter sido palco de um vídeo dos U2). O El Palentino é um clássico de Madrid, aberto das 8 da manhã à 2 da madrugada. É a verdadeira tasca de bairro a cheirar a fumo e fritos, com balcões de alumínio, lâmpadas fluorescentes e espelhos por todo lado. Podes passar por cá para comer umas tapas ou bocatas simples e baratas, ou beber um copo depois do jantar com os velhotes do bairro sentados ao balcão (mais a enchente de tantos como tu que por cá passam, se vieres tarde).
Gastronomia espanhola
Daqui podes seguir para vários clássicos da noite madrilena, situados neste mesmo bairro. O Tupperware anima a noite desde os tempos da Movida. A decoração colorida e excessivamente pop pós-moderna (pensa: cores psicadélicas, barbies, televisões sem ecrã cheias de bonecos de plástico…) resulta surpreendentemente bem. No andar de cima podes estar mais tranquilo, sentado a beber um copo e conversar. No piso inferior dançar ao ritmo de rock e indie, dos anos 80 até aos dias de hoje.
O La Via Láctea, também ativo desde o final dos anos 70, é muitas vezes apelidado de “bar mais lendário de Madrid”. Está forrado a posters de espetáculos antigos e grandes do rock, tem dois andares, uma mesa de snooker, e muitos recantos. A música anda à volta do rock e punk. Há quem lhe chame o CBGB Espanhol.
Qualquer um destes bares/discotecas, como quase todos nesta zona, fecham às 3 da manhã. Se te apetecer dançar até mais tarde, vais ter de ir até um dos clubs maiores espalhados pela cidade. Tens muitas opções. Estas três são das mais conhecidas de Madrid: o Pacha está aqui mesmo no bairro; para o Kapital, com sete andares, e o Joy Eslava, o mais prático é apanhares um táxi. Nestes sítios é cobrada entrada e têm todos um ambiente menos descontraído e um pouco mais snob. Os rapazes terão de estar de camisa e sapatos e as raparigas na onda do salto alto e maquilhagem caprichada.

Fim de noite

Junta-te aos taxistas em mudança de turno, motoqueiros madrugadores, betinhos de fato e restante gente da noite para um pequeno-almoço/ceia que tanto pode ser de churros e leite com chocolate, como patatas bravas e croquetas ou sandes de orelha, no Iberia, em Malaseña.
Vai dormir.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

24 horas em Lisboa

Telhados de Alfama, Lisboa

Apesar de Lisboa ser uma capital de dimensão relativamente reduzida, este roteiro de um dia em Lisboa não pretende ser um top de atrações turísticas nem responder à eterna questão sobre “o que fazer em Lisboa”. É, ao invés, uma visão pessoal sobre o que poderá ser um dia bem passado na cidade, especialmente para quem pretende visitar Lisboa pela primeira vez ou deixar-se guiar na descoberta da cidade. É por isso mesmo uma viagem feita de escolhas, porque 24 horas é pouco tempo para conhecer Lisboa.

Manhã

Permite-te acordar naturalmente. Acredita, vais agradecer-me mais tarde.
Começa entre o Bairro Alto e o Príncipe Real, debruçado no miradouro de São Pedro de Alcântara. Aprecia a vista do rio, do castelo e dos telhados da colina em frente e sente o sol da manhã na cara.
Diz bom dia ao velhote que passeia o seu cão. Se ainda não comeste, toma o pequeno-almoço no quiosque. Se comeste, bebe um café.
Visitar Lisboa: Calçada da Glória
Desce a Calçada da Glória a pé, ou no elevador, e aprecia os painéis com graffiti à tua esquerda. Nos Restauradores, apanha o metro e sai no Marquês de Pombal. Sobe o Parque Eduardo VII. Repara na fonte que está no topo. É uma homenagem ao 25 de Abril, feita por um escultor Português famoso (João Cutileiro). Sim, parece um pénis.
Atravessa a rua e entra no Jardim Amália Rodrigues. Circunda-o até avistares uma ponte de madeira. OCorredor Verde de Monsanto começa aqui e leva-te até ao Parque Florestal de Monsanto, os “pulmões” da cidade de Lisboa.
Caminha dois quilómetros. Rebola nos relvados, admira as manobras dos skateboarders, aprecia a arte urbana e repara nas pequenas hortas. Amaldiçoa os hotéis horríveis à tua direita e maravilha-te com a imponência do Aqueduto das Águas Livres à tua esquerda (que podes visitar).
Visitar Lisboa: Aqueduto das Águas Livres, Lisboa
Não desistas quando chegares à ponte que parece uma autoestrada – estás no caminho certo. Atravessa-a e passa por baixo do viaduto, seguindo o caminho marcado. A mancha de verde que é Monsanto vai aparecer à tua frente. Relaxa um pouco e regressa seguindo o mesmo caminho, de volta ao metro. Ou então passa o resto do dia em Monsanto… não faltam coisas para fazer.
Hora de Almoço
No metro, sai na Baixa/Chiado para a Rua do Crucifixo. O Oito Dezoito está na esquina com a Rua de São Nicolau. Almoça dois pratos de cozinha tradicional de autor por 10€. Vai-te apetecer uma sesta, mas sai para beber uma bica em vez disso.
Na Pérola do Rossio fazem a sua própria mistura de café e moem-na na hora. Por cinquenta cêntimos pode beber-se um shot de cafeína bem aromático. Compra um pacote de uma das misturas da casa, moída a pedido para o tipo de máquina que tenhas.
Passa pelos turistas avermelhados amontoados na esplanada da Casa Suíça. Parece que estão a fazer fotossíntese. Vira na segunda à direita e não bebas a ginginha d’A Ginginha – vais encontrar melhor mais à frente. Espreita o interior da Igreja de São Domingos: repara nas cores das colunas de mármore e no altar preto, queimado. É lindo, e mórbido. Mas eu acho todas as Igrejas um pouco mórbidas.
Viajar Lisboa: Largo da Severa, Mouraria
Continua pela rua à tua esquerda até chegares ao Martim Moniz. Vê se há alguma exposição na praça e pensa em voltar e almoçar num dos muitos quiosques, noutra altura. Não cedas à vontade de te estenderes nas espreguiçadeiras em frente à fonte, atravessa a estrada e vira à esquerda depois da Igreja da Sra. da Saúde. Estás no bairro da Mouraria.
Vira à direita quando vires a estátua da guitarra Portuguesa e segue em frente até veres, do lado direito, uma porta com o letreiro “Amigos da Severa”. Viste, eu disse que havia um sitio melhor para a ginginha. Conversa com o Sr. António e tenta perceber se ele estará bêbado ou não. Não vais chegar a nenhuma conclusão. Felicita-o pelos 35 anos que leva a trabalhar aqui, bebe mais uma, ou duas, e segue caminho, ligeiramente “tocado”.

Tarde

No cimo da rua está o Largo da Severa. Reza a lenda que é o sítio onde nasceu a primeira cantora de Fado famosa. A sua casa é agora um restaurante e casa de fado.
Deambula pelo bairro até chegares à Rua de São Lourenço (dica: vai virando sempre à direita). Sim, é confuso e provavelmente vais-te perder, mas isso faz parte do passeio. Inspeciona os edifícios com azulejos verdes, azuis e vermelhos, acena aos velhotes com boinas, à freira que passa, às mulheres comsaris. Descansa num dos bancos das pequenas praças que vão aparecendo.
Visitar Lisboa: Bairro da Mouraria
No fim da Rua de São Lourenço chegas ao Largo dos Trigueiros. Há uma fonte no meio e grinaldas coloridas. A árvore poderá estar decorada de alguma maneira. Poderás encontrar senhoras idosas a fazertricot e a conversar, sentadas no banco, ou homens negros a ouvir musica Cabo-verdiana, ou jovens a fumar uma ganza, ou então ter o largo só para ti. As fotografias nas paredes das redondezas fazem parte de um projeto da Camilla Watson. Representam a vida e as pessoas do bairro. Queres saber mais? O estúdio é já aqui.
Continua em frente. Vais passar por mais ruas estreitas, prédios antigos e chegar ao Largo de São Cristóvão, com a Igreja homónima. Se te apetecer, desvia-te para as ruas secundárias para sentir a vida do bairro. Cumprimenta as senhoras que estão à janela e espreita as drogarias antigas que ainda se encontram por aqui.
Subindo pela Calçada do Marquês de Tancos já estás na encosta do castelo. Provavelmente já o tinhas percebido, por causa da inclinação da rua. Descansa um pouco na esplanada do Chapitô, a beber uma imperial. Este conjunto de edifícios brancos, vermelhos e amarelos rodeia um pátio lindíssimo com mesas e cadeiras diferentes, um pequeno jardim de ervas aromáticas, uma tenda e uma das melhores vistas sobre Lisboa e o rio Tejo. Tudo isto pertence a um projeto que inclui, no mesmo espaço, uma escola de circo e artes performativas, uma casa para jovens desfavorecidos que frequentem a escola, palcos para ensaios e espetáculos, um restaurante e um bar.
Rua de Alfama, Lisboa
Continuando pela mesma rua, um pouco mais acima está um painel de azulejos brancos e azuis a representar Santo António, um dos santos padroeiros de Lisboa. Eu acho-o piroso, mas muita gente parece apreciá-lo. Para a esquerda, no cimo da colina, está a entrada para o Castelo de São Jorge, mas vais seguir em frente. Ouve-se Fado no ar.
Quando chegares ao miradouro de Santa Luzia vais ter de decidir se te queres manter por aqui e ir explorar Alfama, que está aos teus pés, ou se já tiveste a tua dose de bairros históricos. Não consegues decidir? Ok, faz as duas coisas: apanha o elétrico 28, na direção do Martim Moniz, e irás atravessar Alfama rapidamente, a caminho do próximo destino. Aproveita a viagem.

Fim de Tarde

Apanha o elétrico 15, na Praça da Figueira. Vai atravessar a baixa e dirigir-se para fora do centro, na direção de Alcântara. Pede ao condutor para te indicar a paragem mais próxima da LX Factory, um complexo industrial antigo que esteve abandonado durante décadas. Reabriu em 2007 e estabeleceu-se como uma “ilha criativa” de Lisboa.
No Lx Factory, em edifícios onde as paredes estão decoradas com arte urbana, podem encontrar-se lojas, escritórios de arquitetura e design, espaços de coworking, produtores de artes visuais, galerias, cafés, restaurantes, bares e estão espaços novos a abrir constantemente.
Come uma fatia de bolo de chocolate na Landeau e perde a noção do tempo na Ler Devagar, uma livraria incrível revestida de livros do chão ao teto, com a altura de dois andares. São mais de 150.000 livros, novos e usados, num espaço que vale a pena visitar só por si.

Noite

Como vês, não faltam coisas para fazer em Lisboa. Para a noite, sugiro-te duas opções:
  1. Fica pelo Lx Factory. Janta num dos restaurantes e vê se há alguma festa num dos armazéns.
  2. Volta de elétrico para o Cais do Sodré. Podes jantar no acolhedor Café Tati, onde a ementa, de inspiração internacional, varia todos os dias. Às quartas-feiras têm concertos de Jazz (aos domingos à tarde também). Para petiscos portugueses e Fado, com decoração minimalista, opta pel’ O Povo.
Pensão Amor
A Rua Nova do Carvalho, mais conhecida por “Rua Rosa” (quando lá chegares percebes porquê), é tudo o que precisas para o resto da noite. Bebe um cocktail na Pensão Amor, mas sai antes de chegarem as multidões.
Dança ao som dos anos 70, 80 e 90 no Jamaica ou no Tokyo até por volta das 3. Daí segue para oMusicbox para uma boa dose de musica eletrónica (ou vai mais cedo se souberes de algum concerto em particular que queiras ver). Se ainda tiveres energia, no Europa e no Copenhaga os after-hours começam às 6.
Madrugada/Manhã do dia seguinte
Não podes ir para casa sem ensopar o álcool que consumiste. Passa na Casa Cid e come uma bifana, uns rissóis, umas moelas ou mesmo um cozido à Portuguesa.
Sim, o restaurante tem um aspeto manhoso e é possível que tenhas gente com ar estranho a vir-te pedir comida (tem cuidado com a carteira), mas é um clássico. Abriu em 1913, quando servia os marinheiros e prostitutas que deambulavam por estas ruas e é o único lugar onde podes comer destas coisas até às dez da manhã.
Vai dormir.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

24 horas em Londres

Big Ben e Palácio de Westminster, Londres

Sendo a capital britânica uma cidade enorme e diversificada, este roteiro de um dia em Londres não pretende, evidentemente, ser um top de atrações turísticas nem responder à eterna questão sobre “o que fazer em Londres”. É, ao invés, uma visão pessoal sobre o que poderá ser um dia bem passado na cidade, especialmente para quem pretende visitar Londres pela primeira vez ou deixar-se guiar na descoberta da cidade. É também, naturalmente, uma viagem feita de escolhas, porque 24 horas é pouco tempo para conhecer Londres.

Visitar Londres: as primeiras 24 horas

Manhã

Comece o dia devagar com o melhor café da cidade. Situado na trendy região de Shoreditch, o Ozone Coffe Roasters (11 LeonardStreet) é um hino aos sentidos. Do expresso ao cappuccino, passando pelo latte ou pelo especial Syphon for 2. Aqui tudo é torrado na hora. Ao fim de semana, o brunch da casa é irresistível.
Saia do Ozone e vire à esquerda. Caminhe até ao cruzamento com a Great Eastern St e volte à direita. Continue durante cinco minutos, onde encontrará do seu lado direito o Mercado de Old Spitafields. Abra os cordões à bolsa nesta gigantesca feira de artesanato e produtos em segunda mão. Não se vai arrepender!
Siga viagem rumo a oeste, onde chocará com a estação de metro de Liverpool St. Desça as escadas rolantes, entre numa das carruagens e deixe-se contagiar pelo rebuliço do mais antigo sistema de metro do mundo. Saia na estação de Holland Park.
Borough Market, Londres
Chegado ao Holland Park, contemple as cascatas e o jardim japonês que fazem deste parque um dos mais belos e carismáticos da cidade de Londres. É fã de jogos de tabuleiro? Desafie um dos vários jogadores de xadrez do parque. Se o clima londrino estiver convidativo, aproveite este momento para um breve piquenique (atenção aos esquilos!); caso a chuva teime em não parar, opte por deambular de loja em loja no bairro de Notting Hill.
Deixe-se encantar com as preciosidades da Alice’s, a loja de antiguidades mais emblemática de Portobello Road, ou com as coloridas vivendas do bairro, dignas de um filme de desenho animado.
Dirija-se então para a estação de metro Notting Hill Gate, desça até à plataforma e aproveite a viagem para relaxar as pernas. Próximo destino: London Bridge.

Almoço

Na estação de London Bridge, siga as indicações para o Borough Market. Prepare-se para uma explosão de cores, aromas e sabores.
O mais famoso mercado de comida de rua da capital celebra mil anos de existência. Isso mesmo: um milénio a encher dispensas e bocas de milhões de londrinos. Do peixe fresco do sul da ilha, às paellasespanholas ou às raquelletes suíças, no Borough Market há iguarias vindas dos quatro cantos do mundo. O melhor mesmo é provar vários pratos em pequenas quantidades. Acredite…é de comer e chorar por mais.
Barriga cheia? Altura ideal para queimar calorias. Contemple o rio Tamisa enquanto atravessa a London Bridge. Na margem Norte vire à esquerda e continue a marchar – cerca de 15 minutos – até à moderna Millennium Bridge. Volte a cruzar o rio, desta vez demore-se a observar a Catedral de São Paulo e a Tate Modern. Suba gratuitamente ao sexto piso do museu de arte contemporânea mais emblemático de Londres, onde encontrará a cafetaria e uma paisagem desafogada sobre a capital inglesa.
Central London vista da Catedral de São Paulo
Volte ao piso térreo e saia pela Hopton St. Siga em direção a Sul até ao cruzamento com a Southwark St, vire à direita e, na Blackfriars Rd, volte à esquerda. Continue a andar durante cerca de três minutos até encontrar do seu lado direito a Meymott St. Siga por esta ruela até à requintada Roupell St.
Perca-se neste pequeno bairro de casas em tijoleira e portas coloridas, do século XIX, um dos mais pitorescos de Londres. Não deixe de parar na última morada da Roupell St onde a pastelaria de fabrico próprio Konditor & Cook o aguarda. Se estiver a ressacar por um expresso, não desespere: uns metros à frente, na Exton St, encontrará café Delta no pequeno Caprini Sandwich.

Tarde

Continue o seu passeio em direção ao rio. Deixe para trás o monumental BFI Cinema e dirija-se à parte de baixo da ponte de Waterloo, onde todos os dias dezenas de alfarrabistas exibem os seus livros na South Bank Book Fair. Entre livros antigos, mapas e gravuras de séculos passados, estes feirantes irão surpreendê-lo com as suas magnificas coleções.
Alguns metros à frente – em direção a Oeste – situa-se o Southbank Skatepark, um dos mais concorridos da cidade. Aproveite para descansar, enquanto observa os jovens londrinos a manobrarem os seus skatese patins. Não se irá desiludir.
Daqui até ao gigantesco London Eye são apenas alguns metros. Evite as longas filas de turistas e desfrute tranquilamente da majestosa vista sob o Tamisa e o Big Ben a partir do The Queen’s Walk.
Certamente já reparou nas centenas de postos de aluguer de bicicletas. Bike friendly, Londres é a cidade perfeita para pedalar. Alugue uma junto à ponte de Westminster e siga junto ao rio até encontrar um dos segredos mais bem guardados da capital: o Tamesis Dock.
Neal's Yard, em Covent Garden
Ancorado junto à margem, o Tamesis Dock é muito mais que um velho navio. É um pub, restaurante, sala de espetáculos e ponto de encontro de dezenas de londrinos. Ao final da tarde, este pequeno barco enche-se de transeuntes que aproveitam os últimos raios de sol para beber uma pint. Bandas como os Local Natives, Bastille ouThe Beautiful Girls já pisaram o palco do Tamesis Dock.
Depois de aquecer a garganta, é hora de prosseguir caminho. Aproveite o cair da noite para pedalar de novo até Westminster. Estacione a sua amiga de duas rodas e contemple os agora iluminados Palácio de Westminster e torre do Big Ben, um espetáculo sublime de cor e luz.
Atravesse a ponte e dirija-se ao metro de Westminster. Aperte-se para entrar numa das carruagens e saia em Convent Garden.
Ao abandonar a estação, vire à esquerda em direção à Neals St. Famoso pelas suas lojas e restaurantes sempre na moda, o bairro de Convent Garden é o lugar ideal para as últimas compras. Não deixe de visitar a Urban Outfitters, a Office Shoes ou a American Apparel. Também aqui irá encontrar a reputada Fly, uma marca de sapatos portugueses de sucesso.
Não deixe Convent Garden sem espreitar o Neal’s Yard, um pequeno pátio que parece retirado de um livro de banda desenhada e esconde várias pastelarias, mercearias e restaurantes. O refugio perfeito para se resguardar do rebuliço da cidade.

Noite

Regresse ao Tube de Convent Garden e encarrile até à estação de Shoreditch High St. Aqui chegado, siga até à multicultural Kingsland Road. São vários os restaurantes asiáticos à escolha nesta zona. Os vietnamitas VietGrill e Que Viet ou o tailandês Mien Tay estão entre os mais afamados. As bebidas alcoólicas não figuram no menu, mas podem entrar sem custos extra.
Vista noturna da Tower Bridge, Londres
Se preferir uma refeição mais britânica, vá ao The Breakfast Club (12-16 ArtilleryLane). A cinco minutos da estação de Shoreditch High St, este restaurante tranquilo esconde um segredo. Quando terminar a sua refeição interrogue o empregado sobre piso inferior. Prepare-se para ser surpreendido! Um porteiro irá conduzi-lo pelos bastidores até um frigorifico. Ao ser aberto, este mega-congelador revela umas escadas que escondem um PUB secreto. Surpreendido?
Deixe o secretismo do The Breakfast Club e desloque-se novamente à Leonard Street, desta vez ao número 100. O The Book Club – um antigo edifício Victoriano – é hoje um dos bares mais trendy de East London. Da comida aos concertos, passando pelos DJ’s e eventos artísticos, o The Book é o espaço para quem gosta de navegar na crista da onda.
Poucos minutos a pé situa-se outro fenómeno da noite londrina: o Queen Of Hoxton (Curtain Road 1-5). Além da pista de dança underground, este espaço noturno esconde um dos melhores terraços da cidade. Imperdível no verão!
Não regresse a casa sem aconchegar o estômago. A poucos quarteirões do Queen Of Hoxton fica a rua mais multicultural da capital inglesa: Brick Lane. No número 155 encontra-se a loja de beigels mais famosa do bairro. Conhecida por nunca fechar, a Beigel Shop é a melhor amiga dos noctívagos de East London. Dobeigel simples ao mais elaborado com salmão e queijo, aqui tudo sabe a pouco.
Beigels
Agora que está de barriga e a mente cheia… vá dormir!